Biblioteca em Domicilio



O semeador de sonhos
Professor cria biblioteca móvel em Ipiguá
 
  Thomaz Vita Neto  
José Roberto da Silva teve idéia da biblioteca ao tornar-se responsável pelo programa Escola da Família

Michelle Berti

1:45: - Dois de março de 2008. Na escola Francisco Purita, em Ipiguá, o professor José Roberto da Silva, 40 anos, se prepara para mais um desafio na carreira. Ele se reúne pela primeira vez com os alunos, desde que assumiu o cargo de responsável pelo programa Escola da Família. Estão presentes cerca de 15 estudantes que participam do projeto Game Superação, do Instituto Ayrton Senna. O objetivo do jogo é realizar uma atividade que integre os alunos à comunidade. Uma idéia não lhe sai da cabeça.
- A cidade não tem biblioteca.
Apaixonado pela literatura, ele deseja dar às pessoas a oportunidade de sonhar com o reino das palavras. Assim como aconteceu com ele, quando criança. “Palavra, palavra, (digo exasperado), se me desafias, aceito o combate.”

Como o lutador de Drummond, José Roberto enfrenta uma realidade difícil. Um município sem biblioteca pública não é exclusividade de Ipiguá. E uma cidade sem biblioteca, pensa, é como uma praça sem bancos, um jardim sem flores, um homem sem sonhos.
- Alguma coisa precisa ser feita. Se não há onde o povo buscar livros, que a literatura vá, então, até o povo.
Com este pensamento, o professor inicia sua reunião com os jovens.
- E então, moçada? Que tal arrecadarmos livros?
Juntos, eles definem que a melhor maneira de conseguir exemplares é realizar uma competição na escola. As turmas devem disputar uma contra as outras. Quem trouxesse mais histórias para a escola ganharia um passeio no Parque Ecológico Danilo Santos de Miranda, em Rio Preto.
O primeiro desafio é a resistência. Nem todos estão abertos à magia das palavras. Apenas cinco classes de aceitam participar. Mesmo com a pouca adesão, José Roberto não desanima.
- É de pouco em pouco que se vai longe.

Thomaz Vita Neto
Voluntária Isamara Pereira entrega livro para Magali Grancieri e o neto Ruan 


Os alunos se esforçam, saem às ruas, pedem livros. Buscam aqueles já esquecidos pelas gavetas do quarto, empoeirados nas prateleiras. De pouco em pouco, como diz o ditado, se vai longe. No último dia da competição, o professor tenta uma última cartada. Com a esperança de um menino, ele entra na sala da 5ª série.
- Pois é, turma. A competição terminaria hoje. Vocês têm seis livros a menos que a 8ª. Mas eu sei que vocês podem mais. Por isso, estou estendendo o prazo da arrecadação em dois dias.
Em 48 horas, a classe que havia conseguido cerca de 45 livros trouxe outros 50 exemplares para a escola. Na recontagem, o número deixou o professor surpreso, principalmente porque a maioria dos livros tinha sido doada pela mesma aluna.
- Como você conseguiu tantos livros, Maria Laura?
- O senhor disse que estávamos perdendo, e que se nós nos esforçássemos, poderíamos ganhar.
- E de onde veio tudo isso?
- Peguei alguns de casa, outros saí pedindo na rua, com uma outra amiga.
A dedicação da aluna e de todos os poucos estudantes que se engajam na ação enchem o professor de orgulho. Em apenas um mês, eles somam 1.036 diferentes exemplares de gibis, publicações infantis, bíblicas e clássicos da literatura nacional e estrangeira. Os alunos conseguem 335. O professor doa outros 100. A escola, colecionadores e simpatizantes completam o acervo. Com o material em mãos, nasce a Biblioteca em domicílio.
- Vamos sair às ruas, de casa em casa, e oferecer os livros aos moradores. Vamos dar uma oportunidade aos sonhos.
A turma concorda e aprova a idéia.
- Então, ao trabalho pessoal. Precisamos catalogar tudo o que conseguimos.

Maio de 2008. O grupo, agora com 12 participantes, tem o seu maior desafio. Catalogar livros é tarefa mais complicada do que parece. É preciso separar por gêneros, numerar, ordenar e mais uma série de detalhes que se descobre com o tempo.
São dois meses árduos de trabalho. Além de organizar as obras, é preciso armazená-las em um local separado dos livros da escola, de uso exclusivo dos alunos. Enquanto um grupo se dedica ao arquivo, o outro confecciona caixas.
19 de julho. É uma manhã de sábado. O sol brilha no alto do céu claro e azul que cobre a pequena cidade. As ruas estão quase desertas, a não ser por um ou dois meninos que correm atrás de uma bola, e alguns cães, que latem, solitários na direção do horizonte. O ambiente monótono, que lembra a ‘Cidadezinha Qualquer’, descrita por Drummond, é rompido por um grupo de pessoas. Um deles empurra um carrinho de supermercado, carregado de livros. Os outros têm nas mãos pranchetas e canetas. O grupo pára em frente de uma casa. É a estréia da “Biblioteca em Domicílio”.

José Roberto toca campainhas, bate palmas. Convida os moradores a chegarem mais perto para contemplar o reino das palavras.
- Oi, bom dia senhora! Quer um livro para ler durante a semana? É de graça. A senhora escolhe o que quiser, e eu venho buscar na semana que vem.
- Livros? Será? Não tenho tempo, na verdade.
- Se precisar, deixo aqui 15 dias. Ajuda a gente a ficar com o carrinho mais leve...
- Tudo bem. Posso escolher?
De porta em porta, o professor, seguido de seus fiéis ajudantes, conquista novos leitores. Aos poucos, toda a cidade é percorrida. Se no começo do projeto havia resistência, hoje há cobrança.
- Vocês não vão passar lá em casa hoje? Eu moro naquela rua lá embaixo, lembra? Na terceira casa, diz uma moradora à Isamara, 15 anos, uma das voluntárias do projeto.
Aos poucos, o professor, os alunos e os livros vão mudando a vida da cidade. O caso mais marcante é Lucas, 12 anos, estudante da escola. O menino, que carregava uma pipa, estava saindo para brincar.
- E aí, Lucas? Vamos escolher um livro?
- Será, professor?
- Tenho certeza. Aliás, um vai ser pouco. Você é inteligente. Tenho certeza que vai ler bem mais.
- Então, professor, vou guardar a pipa e começar a ler agora mesmo.
O aluno se senta na calçada e abre o primeiro exemplar. Em 15 dias, ele lê 16 livros.
Thomaz Vita Neto
Professor José Roberto e voluntários durante entrega de livros 

Vida nova
Mais que resgatar o prazer da leitura, a biblioteca de José Roberto é responsável por recuperar o ânimo dos jovens.
- Sei que estou fazendo a diferença. Antes, ficava em casa vendo televisão, ou então na rua. Isso não leva a nada. Não conversava com as pessoas, tinha vergonha. Hoje leio mais, sou mais interessada e conheço todas as pessoas. Passei a me conhecer melhor aqui, diz Isa.
A mesma mudança - ou o mesmo espírito cheio de sonhos - de Isa é visto na paciência alegre com que Daniel, 15 anos, empurra o carrinho com os livros; no sorriso prestativo de Rafinha, 12 anos, ao atender aos pedidos. Todos seguem os passos e o entusiasmo de José Roberto, que consegue deixar pelo menos dois exemplares em cada casa que visita.
Ao falar dos resultados do projeto, o professor se emociona.
- Livro é sabedoria, aprendizado, experiência. Me imagino naquele espaço, naquela história. Mas o mais importante para mim é dar oportunidade para que as pessoas sintam isso. Para que elas mudem de realidade.
E os projetos do professor não param por aí. Ele pretende ampliar ainda mais a biblioteca em domicílio. Para isso, pede mais doações.
- Precisamos de livros novos. Não vai demorar para que a cidade tenha lido todo o acervo, principalmente as crianças. Elas amam gibi. E dos quadrinhos passam a ler livros, e daí se tornam leitores.
O professor também já falou com o prefeito eleito para governar Ipiguá no próximo ano.
- O ideal é termos uma biblioteca municipal. Vou lutar para isso.
Como um personagem real de uma poesia concreta, José Roberto segue em sua luta em defesa das palavras. E traz com ele a chave que abre portas para a imaginação.

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